Um conto que eu gosto muito

E AGORA?
by Willian Matt
Tudo começou em um bar lotado de Sampa num sábado de muito frio. As pessoas se empilhavam em mesas e corredores, onde qualquer espaço era disputado com ímpeto. Os garçons "equilibristas" executavam suas danças entre os clientes para atender os pedidos de chope e mais chope...
Em dado momento, duas moças entraram no ambiente apertado e acolhedor do barzinho. Uma na frente a outra logo atrás. Uma guiando a outra sem saber bem ao certo aonde queriam chegar...
Pede licença aqui, empurra um pouco ali, vai sorrindo para um rapaz que fez uma gracinha no corredor, estica a cabeça entre dois ombros... e a primeira moça avança para o centro do bar puxando a outra (que é mais baixa) obstinada como um Dom Quixote e seu escudeiro fiel. Observa desorientada as mesas lotadas, olha para a amiga, olha em torno, olha... E com muito esforço chega bem no meio do bar onde só cabe as duas e ponto. Então, a primeira olha para a amiga guiada ao nada e pergunta:
E agora?
E como em um passe mágico, como se aquela pergunta tivesse um poder maior, ou se perguntar aquilo, naquele ponto, naquela hora, naquele dia, fosse abrir um portal para uma outra dimensão qualquer... aconteceu o inexplicável!
As pessoas que estavam na mesa ao lado das moças pararam de conversar e dar risadas escandalosas e entreolharam-se com dúvidas. Um dos rapazes levantou os ombros, a moça de maquiagem exagerada ficou com o copo suspenso no ar indecisa, um outro, com voz grave e angustiada perguntou:
E agora?
Nas outras mesas o mesmo fenômeno ocorria. Foi acabando os barulhos de copos e risadas, não se ouvia mais conversas nem chamados, apenas uma agitação desconfortável. As pessoas olhavam em torno aflitas sem saber o que estava acontecendo. E de canto em canto do bar só era possível distinguir sempre a mesma indagação amedrontada:
— E agora?
O garçom no meio dos fregueses com a bandeja suspensa e vacilante, perguntou para uma moça que não conseguia levar o cigarro até a boca:
— E agora?
O músico parou de tocar no meio de uma "Bossa" e perguntou para a platéia perplexa:
— E agora?
Na rua do bar, o segurança que separava uma briga perguntou para o rapaz embriagado e ciumento:
— E agora?
O rapaz embriagado e ciumento perguntou para sua namorada infiel:
— E agora?
Os motoristas iam parando seus carros e abrindo os vidros perguntavam para os carros ao lado:
— E agora?
E isso foi misteriosamente se espalhando por todos os lados como uma mancha de óleo em águas límpidas.
No hospital, o cirurgião que fazia uma operação de risco estacou com o bisturi ensangüentado na mão direita e perguntou para a estagiária ao seu lado:
— E agora?
Os pacientes abatidos e terminais perguntaram sem esperanças uns aos outros:
— E agora?
O médico que receitava um remédio para a paciente perguntou desorientado:
— E agora?
A paciente deprimida fez cara de interrogação e foi perguntar para a faxineira no corredor de vassoura na mão sem saber o que fazer:
— E agora?
E nas delegacias os mesmos fatos ocorriam.
Os detentos que cavavam um buraco na cela para a fuga, pararam no meio do trabalho e se questionaram com as ferramentas nas mãos:
— E agora?
O escrivão que batia um boletim de ocorrência, parou com um dedo indicador no "F" e outro no "M", e perguntou com olhar vago para a vítima assustada:
— E agora?
O policial que entrava na delegacia perguntou para o bandido algemado:
— E agora?
O bandido perguntou para o comparsa:
— E agora?
O comparsa devolveu para o delegado:
— E agora?
E ninguém sabia o que fazer...
No avião, o piloto largou o manche e perguntou para o co-piloto:
— E agora?
O co-piloto, mais do que depressa, perguntou assustado para comissária de bordo:
— E agora?
A comissária de bordo foi até sistema de som do avião e perguntou solícita e condicionada para os passageiros enquanto o avião caía:
— Atenção, senhores passageiros: E agora?
E os passageiros aterrorizados responderam perguntando:
— E agora?
E nas torres gêmeas, todos vendo os aviões chegarem gritaram sem tempo e nem saída:
— E agora?
O repórter da televisão olhou para a câmera e perguntou para os seus telespectadores abismado com o espetáculo:
— E agora?
O diretor do programa olhou para o seu assistente:
— E agora?
E o apresentador viciado em audiência sem ter mais o que oferecer indagou a platéia ignorante:
— E agora?
O operário da linha de produção tirou seu capacete e olhou para o companheiro suado e sujo ao seu lado e, sem ter mais força, perguntou sem querer resposta:
— E agora?
A prostituta parou de gemer e se oferecer para o seu cliente, e perguntou lasciva, com um chiclete velho na boca:
— E agora?
O cliente velho da prostituta, sem poder mais manter sua ereção, ligou para sua esposa que cuidava dos filhos em casa e fez a mesma pergunta:
— E agora?
A esposa do cliente velho da prostituta perguntou atônita para sua mãe que fazia bolinhos na cozinha xingando o marido da filha:
— E agora?
A velha cozida em seu ódio derrubou o óleo fervente em suas pernas varicosas e descarnadas gritando a dor:
— E AGORA?!
Os vizinhos em seus lares falidos e desgraçados se repetiam patéticos em frente a televisão de deprimentes canais abertos:
— E agora?
O menor infrator, no centro da cidade, parou diante da senhora gorda com a carteira dela na mão, e olhando bem no fundo dos seus olhos perguntou alucinado:
— E agora?
O homem do metrô, com sua voz metalizada, perguntou aos passageiros quando o trem parou entre duas estações:
— E agora?
O viciado perguntou ao traficante na favela de olhos arregalados:
— E agora?
O bêbado perguntou ao dono do boteco:
— E agora?
E o justiceiro parou no segundo tiro e perguntou para sua vítima ainda viva e solitária:
— E agora?
A vítima soltou uma lágrima e morreu.
O juiz perguntou para o réu inocente:
— E agora?
E a família despejada sem ter para onde ir perguntou para o oficial de justiça:
— E agora?
E o terrorista, com toda sua certeza, pensou pela primeira vez olhando as crianças indefesas:
— E agora?
Nos quartéis, nos porta-aviões, nas bases nucleares, todos pararam para perguntar:
— E agora?
E nas guerras em andamento, nas guerrilhas, nos conflitos e nas ditaduras, todos pararam suas torturas, e os oprimidos sem saber o que é alívio perguntaram:
— E agora?
E antes da onda gigante chegar os turistas perguntaram:
— E agora?
O guarda de trânsito parou de apitar e perguntou para o pedestre:
— E agora?
O camelô, o feirante, o taxista, a modelo, todos se perguntavam suspensos no ar:
— E agora?
A fila parou de andar:
— E agora?
O caixa do banco, sempre preocupado, não sabia mais o que fazer com aquelas contas e foi perguntar para o gerente:
— E agora?
O gerente ligou para o diretor:
— E agora?
O diretor saiu de cima de sua secretária e perguntou à pobrezinha, muito nervoso:
— E agora?
O banqueiro corrupto entrou na sala e perguntou aos dois seminus, com olhos devassos:
— E agora?
E bem no meio do deserto do Saara, o beduíno perguntou ao seu camelo sedento:
— E agora?
O camelo riu.
Quem dormia e sonhava, sonhou que se perguntava:
— E agora?
E na fome da África as crianças que sobraram perguntaram:
— E agora?
E depois do furacão, a nação poderosa perguntou furiosa:
— E agora?
E os presidentes perdidos perguntaram aos seus ministros em assembléias extraordinárias:
— E agora?
O papa sem saber perguntou ao bispo que perguntou ao padre:
— E agora?
E o padre perguntou aos fiéis na missa lotada:
— E agora?
E o povo arrependido de olhos vermelhos para Deus perguntaram:
— E agora?
Em todo o planeta a pergunta era mesma e nada se confirmava. E sem que a maioria soubesse onde e como tudo aquilo começou, qual era o motivo daquele "branco" geral, ninguém mais sabendo onde ir ou o que fazer, mas com a dolorosa expectativa do momento seguinte... A Terra parou de girar e rodar em torno do sol, e apenas ficou flutuando no espaço sem viajar mais pelo universo... E agora?

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