terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Escolha sua opção!




LABIRINTO

Willian Matt


Onofre acordou com um pensamento fixo naquele domingo. Todos os dias acordava com algum tipo de pensamento que o incomodava o dia inteiro e só o abandonava quando ele executasse aquilo que o estava atormentando. Numa quarta-feira, acordou com a nítida impressão de que o seu apartamento de quatro cômodos explodiria se ele não trocasse a mangueira do gás naquele mesmo dia. Foi para o trabalho pensativo, franzindo as grossas sobrancelhas negras e coçando o lado direito do rosto, como se a barba, milimetricamente aparada, estivesse por fazer. Seu colega de repartição aconselhava:
— Onofre, essas idéias fixas não são normais. Procura um médico, homem!
O colega de trabalho evitava falar diretamente em psicólogos e psiquiatras, com medo de ofender, mas sentia pena do rapaz com suas manias e concluía balançando a cabeça e colocando a mão no ombro de Onofre:
— Isso não é vida.
Mas Onofre concordava mais por educação e logo estava ao telefone fazendo cotação de preços da tal mangueira. E assim eram todos os dias: Limpar a geladeira; trocar os móveis de lugar; costurar o que estava rasgado; colar o que estava quebrado; procurar coisas perdidas... como se o mundo fosse acabar se essas coisas não fossem feitas no mesmo dia. Coisas sem importância mas que tomavam proporções gigantescas na cabeça perturbada de Onofre.
E naquele domingo foi a vez da secretaria eletrônica. Acordou achando que o recado não era bom e que o "sistema de atendimento para telefone ocupado" não estava satisfazendo suas reais necessidades. Mesmo recebendo um único telefonema por mês da sua mãe que morava na Espanha com um garotão professor de dança, e não tendo ninguém para ligar, pois não tinha lá muitos amigos, nenhum para ser exato, o "sistema de atendimento para uma vida vazia" estava ocupado, portanto tornavam suas necessidades irreais...
Levantou e foi desenrolando sua rotina numa ansiedade desesperadora. Fazia tudo olhando furtivamente para o maldito telefone, um aparelho em forma de camarão que sua mãe mandou da Espanha. Presente de aniversário (?). Tomou o café puro e quase amargo com tanta angústia em resolver logo aquele "problema", que seu coração estava acelerado. Na sua loucura, adiava ao máximo o fatídico momento de tirar o fone do gancho. Talvez, uma espécie de prazer. Tentou se controlar ao lembrar dos conselhos de seu colega de repartição. Então pegou o guardanapo calmamente e foi até o banheiro escovar os dentes.
Sentiu uma pontinha de raiva quando o telefone, que nunca tocava, tocou. E se fosse sua mãe que falava por horas... Ele queria programar a secretaria o mais rápido possível. Se livrar daquela ansiedade torturante das coisas que "não estão corretas". Pensou em deixar tocar até desistirem, mas resolveu atender. Era engano. Graças a Deus! Nem devolveu o telefone ao gancho e discou para a companhia telefônica. O serviço digital atendeu e a moça de voz robótica começou a oferecer os números:
— Para a secretária eletrônica, disque... para solicitar o serviço tal, disque... para transferência de chamadas, disque...
E aquela sucessão de números e serviços sendo oferecidos iam envolvendo Onofre numa espécie de transe. Como um jogo, os botões do telefone sendo apertados e novas informações sendo explicitamente expostas, novas possibilidades em forma de serviços penetrando a mente de Onofre através do ouvido e o levando para cada vez mais longe que já nem se lembrava mais o que realmente queria fazer a respeito do "sistema de atendimento...". Não. A voz robótica estava dizendo outras coisas para ele. Coisas que não estavam relacionadas com telefones, secretarias, sistemas e números... Ele estava tão envolvido por aquela voz que mandava ele fazer e ele obedecia, que ele podia até estar ficando apaixonado.
— Se sua vida perdeu o sentido, disque 1; Se sua vida não é bem a que você gostaria, disque 2; Se você anda muito ocupado, disque 3...
"Parece que essas opções são para mim", pensou. Mas que opção escolher se todas pareciam ser apropriadas? Escolheu a 2 e a voz continuava:
— Se precisa de mais aventura, disque 1; Se quer mudar de profissão, disque 2; Se precisa de novos desafios...
E Onofre ia apertando e imaginando sua vida mudando a cada toque. E a essa altura ele já era espião internacional, rico, bonito, inteligente e irresistível para as mulheres. E ao invés de se contentar com tantas mudanças oferecidas e desligar o maldito telefone ad eternum, continuava a teclar compulsivamente. Olhava em torno, mas não via, apenas imaginava tudo que ouvia preenchendo o grande vazio da sua vida. Todas as coisas maravilhosas que aquela voz robótica oferecia ele ia visualizando com os olhos criativos da imaginação humana. E depois de ser executivo, espião, piloto de corridas e de avião, lutador de vale tudo, rei...
— Se você deseja ser Deus, disque 1; Para voltar e continuar com as opções, disque 0.
Onofre sentiu um grande silencio na sua alma. Ser Deus? Não queria ser Deus. Era pecado! O silêncio do outro lado da linha o pressionava insidiosamente. Deveria haver outras opções, mas a moça robô foi seca e ficou muda. Precisava escolher rápido, e se caísse a linha? Não tinha outro jeito. Não podia ser Deus. Talvez, apertando a tecla 1 pudesse, mas não queria. Apertou o "0". Outro silêncio e pronto, a voz lacônica e sem importância do sistema digital voltou com suas possibilidades limitadas.
— Para a secretária eletrônica, disque... para solicitar o serviço tal, disque... para transferência de chamadas, disque...
Onofre soltou um palavrão que não costumava dizer e tentou fazer tudo de novo, mas com poucas apertadas as opções voltavam para o início, no círculo vicioso e monótono desses serviços de atendimento digital que quase sempre levam você a lugar nenhum. Então, finalmente, ele desistiu e nem quis reprogramar a secretária. E apático invadiu o domingo que sempre o invadia voltando para o banheiro com a boca cheia de creme dental.
Advogados Rio de Janeiro
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